domingo, 18 de agosto de 2013

A caríssima Judite e o pobre Lorenzo

Caríssima Judite,
Começo a acreditar que o comunismo é um vírus e que boa parte dos portugueses foram terrivelmente atacados.
A Judite, já se vê, também não escapou à praga.
Com que então só somos um país livre se formos todos pobres?

Ora vejamos que disse a caríssima Judite com as perguntas que fez:
- Que não se deve ser rico. É feio para com os outros.
- Que quem não se importa com esta primeira premissa e é rico não pode usar o seu dinheiro livremente. O seu dinheiro. Porque pode ofender os outros, os menos ricos, os remediados e os pobres.
- Que os ricos que possuam qualquer ligação a Portugal, por remota que seja, têm a obrigação moral de participar na recuperação financeira do país. Como é que a troika não pensou nisto? Genial.
- Que um miúdo com a minha idade não pode ter uma festa a celebrar o dom da sua vida da maneira como acha que deve ser celebrada. Mesmo que isso implique não roubar, não matar, não transgredir nenhuma lei. Porque miúdo que faz uma festa de 300 mil euros, em vez de uma celebração com um bolo de arroz de 3 euros e um fósforo num qualquer jardim público com meia dúzia de amigos, merece ser enxovalhado na televisão nacional
- Quem tem mais dinheiro do que os outros, não obstante tal dever-se ao facto de ter gerado alguma forma de riqueza para a sociedade e ter sido desta forma recompensado, deve-se sentir culpado e ter a consciência pesada por não ser pobrezinho, por não estar a viver num T1 arrendado sem elevador em Rio de Mouro, por não ter que ir ao minipreço e usar os cupões de descontos ou andar de autocarro, metro, ou até mesmo sentir-se culpado por não ter os pés calejados e os sapatos rotos de tanto andar a pé nos dias de greve.

Pois, caríssima Judite, as suas teorias têm um preço elevadíssimo: a própria liberdade e o direito à autodeterminação de uma Pessoa. E já foram testadas na União Soviética, como devia saber. O resultado não foi positivo. Aliás, também queriam fazer o mesmo em Portugal...mas bons e ricos homens não deixaram que tal acontecesse!

Seguindo a sua linha de pensamento, caríssima Judite, para quê que vai de férias para o Algarve, podendo usufruir das praias de Carcavelos, da Parede, do Estoril..? Não acha ofensivo para todos aqueles que ganham o seu bronze nas paragens de autocarro? Em quê que fica a sua "obrigação moral"?

Talvez no esforço por um exercício mais cuidado e digno da sua profissão?

E, já agora, a caríssima Judite é com certeza mais rica que eu. Se estiver de boa vontade em partilhar a sua riqueza comigo e com mais uns quantos, julgo que nenhum de nós se importará.


Catarina Nicolau Campos

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